Pedra nos rins (Litíase renal): causas, sintomas e tratamento
O Que é litíase renal?
A litíase renal, também conhecida como cálculo renal ou pedra nos rins, é uma condição clínica comum que afeta milhões de pessoas. Ela é caracterizada pela formação de cristais sólidos no trato urinário. Acontece quando substâncias presentes na urina – como cálcio, oxalato ou ácido úrico – se acumulam e cristalizam na via urinária.
É mais comum em homens do que em mulheres.
Nota-se aumento progressivo da sua incidência em todo mundo nos últimos anos..
As pedras nos rins podem causar dor intensa e gerar piora da qualidade de vida do paciente. Infelizmente apresenta alta taxa de recorrência se não tratada adequadamente.
A litíase é fator de risco para desenvolvimento de Doença Renal Crônica (link para outro artigo).
Tipos de pedras nos rins
Cálculos de Oxalato de Cálcio
São os tipos mais comuns de litiáse. Representam aproximadamente 75-80% de todos os cálculos renais.
Causas principais:
- Excesso de cálcio na urina (Hipercalciúria)
- Excesso de oxalato na urina (Hiperoxalúria)
- Citrato baixo na urina (Hipocitratúria)
- Volume urinário baixo
Cálculos de Fosfato de Cálcio
Costumam representar 10-15% dos casos de litíase.
Causas principais:
- Urina alcalótica ( pH acima de 6,5)
- Acidose tubular renal
- Hiperparatireoidismo primário
- Rim esponjoso medular
Cálculos de Ácido Úrico
Costumam representar 5-10% dos casos de litíase.
Causas principais:
- Urina ácida (pH abaixo de 5,5)
- Excesso de ácido úrico na urina (Hiperuricosúria)
- Volume urinário baixo
- Dieta rica em purinas (carnes)
Uma característica interessante desse tipo de cálculo é que ele não é visível ao raio-X simples.
Cálculos de Estruvita (Infecção)
Costuma representar 10-15% dos casos de litíase.
Causas:
- Infecções urinárias por bactérias produtoras de urease
- Mais comum em mulheres
- Podem crescer rapidamente formando "cálculos coraliformes"
Cálculos de Cistina
Tipo raro de cálculo, representam 1-2% dos casos de litíase.
Causa:
- Doença genética Hereditária (Cistinúria)
- Defeito no transporte de cistina
Causas e fatores de risco
A formação dos cálculos é multifatorial e resulta da interação entre fatores genéticos, metabólicos, ambientais e dietéticos.
São fatores de risco para a formação de pedra nos rins:
Desidratação e baixo volume urinário
O fator de risco mais importante para a formação de todos os tipos de cálculo.
Mecanismo:
- Urina concentrada aumenta supersaturação
- Menor diluição de substâncias formadoras de cristais
- Reduz efeito protetor do fluxo urinário
Fatores dietéticos
Vários fatores dietéticos podem contribuir para a formação dos cálculos ou ajudar a prevenir a formação dos mesmos.
Aumentam risco:
- Excesso de Sódio na dieta
- Excesso de Proteína animal na dieta
- Baixa ingestão de líquidos
- Consumo de refrigerantes
Reduzem risco:
- Café e chá
- Cálcio dietético adequado
- Dieta DASH (rica em frutas, vegetais, laticínios com baixo teor de gordura)
Condições médicas
Algumas doenças podem aumentar o risco de desenvolver cálculos:
- Diabetes tipo 2
- Obesidade
- Síndrome metabólica
- Gota
- Hiperparatireoidismo primário
- Acidose tubular renal
- Doença inflamatória intestinal
- Infecções urinárias recorrentes
Fatores genéticos
A Hipercalciúria é a alteração genética mais comum vista em pacientes com litíase e 50% têm histórico familiar.
Doenças genéticas:
- Cistinúria
- Hiperoxalúria primária
- Acidose tubular renal distal
- Doença de Dent
Medicamentos
O uso de alguns medicamentos pode aumentar o risco de litíase:
- Diuréticos (em excesso)
- Antiácidos com cálcio
- Suplementos de vitamina C e D em excesso
- Topiramato
- Inibidores de protease (indinavir)
Fatores ambientais
- Trabalho em ambiente de alta temperatura
- Clima quente
- Ocupações com desidratação frequente
Sintomas da litíase renal
Nem sempre os cálculos renais dão sintomas. Muitas vezes são descobertos em exames de imagem de rotina. No entanto, quando o cálculo se movimenta no trato urinário, gera um quadro de dor intensa conhecido como cólica renal
Cólica renal
A dor intensa é o sintoma mais comum, associada a náuseas e vômitos. A localização da dor depende da localização do cálculo, porém o quadro mais comum caracteriza-se por:
- Dor súbita e intensa no flanco ou lombar
- Pode irradiar para virilha, testículos ou grandes lábios
- Tipo cólica (vai e vem em ondas)
- Intensidade 10/10 na escala de dor
- Paciente fica inquieto, difícil encontrar posição de alívio
Podem aparecer sintomas urinários e gastrointestinais:
Sintomas urinários
- Urgência urinária
- Frequência urinária aumentada
- Dor para urinar (Disúria)
- Sangue na urina (Hematúria) - presente em 85% dos casos
- Urina turva ou com odor forte
Sintomas gastrointestinais
- Náuseas e vômitos (50-90% dos casos)
- Distensão abdominal
Quando não tratadas adequadamente, podem levar a complicações como:
- Infecção urinária ou pielonefrite (infecção dos rins)
- Hidronefrose (dilatação dos rins)
- Injúria renal aguda - perda de função dos rins
Procure atendimento urgente se:
- Febre acima de 38°C
- Calafrios
- Vômitos persistentes
- Incapacidade de urinar
- Dor não controlada com analgésicos
- Rim único ou transplante renal
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico envolve avaliação clínica e exames complementares de imagem.
Exames de imagem
Tomografia computadorizada sem contraste (padrão-ouro):
- É o exame de escolha para cálculo (alta sensibilidade e especificidade)
- Detecta todos os tipos de cálculos
- Identifica cálculos pequenos
- Avalia tamanho, localização e obstrução
- Identifica complicações
Ultrassom:
- Primeira linha em gestantes e crianças
- Não utiliza radiação
- Detecta hidronefrose
- Pode não identificar cálculos pequenos
Radiografia simples (raio-X):
- Detecta apenas cálculos radiopacos
- Não visualiza cálculos de ácido úrico
- Menos sensível
Exames laboratoriais iniciais
- Exames de sangue - Creatinina, cálcio, ácido úrico, entre outros
- Exame de urina 1 (EAS)
- Cultura de urina - quando suspeita de infecção
Avaliação metabólica
Exames mais específicos, voltados para avaliar a causa da formação dos cálculos. Está indicada em alguns casos:
- Pacientes com litíase recorrente
- Primeiro episódio em pacientes de alto risco
- Pacientes interessados em prevenção
- Crianças e adolescentes
Para realização da avaliação metabólica são necessários vários exames que envolvem:
- Coleta de urina de 24 horas (1-2 amostras)
- Análise do cálculo eliminado - Fundamental quando disponível
Tratamento da Crise Aguda
Controle da dor
Pode ser feito com diversas medicações, sendo os antiinflamatórios não esteroidais as medicações de primeira linha.
Vantagens:
- Reduzem inflamação e edema ureteral
- Diminuem produção de urina
- Eficácia superior a opioides em alguns estudos
Outra classe de drogas que pode ser utilizada são os Opióides.
Terapia expulsiva
Em alguns pacientes pode haver a indicação de uso de medicamentos para facilitar a expulsão do cálculo. A classe de drogas utilizada são os Alfaboqueadores (Doxazosina,Ttansulosina, Terazosina).
A prescrição deve ser individualizada de acordo com cada paciente.
Observação e passagem espontânea
Na maioria dos casos, observa-se o quadro e aguarda-se a eliminação espontânea do cálculo. A probabilidade de passagem espontânea depende do tamanho do cálculo.
O tratamento conservador pode ser prolongado, porém exige reavaliação em 7-14 dias. Ideal realizar exame de imagem de controle.
Para manutenção de tratamento conservador, paciente deve:
- Estar com dor controlada
- Não ter infecção
- Ter a função renal preservada
- Sem obstruções graves da via urinária
- Ter acompanhamento garantido
Tratamento cirúrgico
Alguns casos terão indicação de intervenção cirúrgica. Os procedimentos são realizados pelos médicos Urologistas. Algumas indicações são absolutas e outras relativas. São algumas das indicações cirúrgicas:
- Infecção com obstrução (emergência urológica)
- Injúria renal aguda
- Dor refratária
- Cálculo >10 mm (relativa)
- Falha de passagem após 4-6 semanas (relativa)
O tratamento pode envolver procedimentos urológicos como:
- Litotripsia Extracorpórea por Ondas de Choque (LECO)
- Ureteroscopia (URS)
- Nefrolitotomia Percutânea (NLP)
Prevenção de recorrência
O nefrologista é responsável pela investigação da causa da formação recorrente dos cálculos e pelo acompanhamento do paciente para prevenção de recorrência.
O tratamento envolve:
Aumento da ingestão de líquidos (Primeira linha)
É a recomendação mais importante!
Objetivo: ingesta hídrica suficiente para fazer > 2,0L a 2,5L de urina por dia,
Dicas práticas:
- Distribuir ingestão ao longo do dia
- Beber antes de dormir
- Aumentar em clima quente ou exercício
- Urina clara indica hidratação adequada
Modificações dietéticas
Cálcio dietético (normal a alto):
- 1.000-1.200 mg/dia
- NÃO restringir cálcio
Reduzir Sódio baixo:
- Limitar a 2-3 g/dia (5 g de sal)
Moderar Proteína animal:
- Limitar a 0,8-1,0 g/kg/dia
Aumentar Frutas cítricas:
- Limão, laranja, lima
Dieta DASH:
- Rica em frutas e vegetais
- Laticínios com baixo teor de gordura
- Grãos integrais
EVITAR:
- Refrigerantes com ácido fosfórico (colas)
- Bebidas açucaradas
- Excesso de vitamina C (>1.000 mg/dia)
- Suplementos de vitamina D em excesso
Tratamento farmacológico
Pode ser necessária a prescrição de medicamentos para prevenir a formação de novos cálculos, porém isso exige uma avaliação individualizada. Algumas medicações disponíveis para tratamento de condições clínicas específicas são:
- Tiazídicos
- Citrato de potássio
- Alopurinol
- Ácido acetohidroxâmico
Quando procurar nefrologista
O paciente deve procurar o Nefrologista quando deseja saber a causa da formação dos cálculos e fazer tratamento preventivo. São indicações de procurar a especialidade:
- Cálculos recorrentes - Avaliação metabólica detalhada
- Doenças metabólicas subjacentes
- Função renal comprometida
- Hipercalciúria, hiperoxalúria, cistinúria
Se houver indicação cirúrgica, pacientes com cálculos complexos ou coraliforme ou que precisam de tratamento na fase aguda da Cólica Renal, o Urologista deve ser o especialista procurado.
A orientação Nutricional também é de extrema importância na litíase renal.
Perguntas frequentes
O que é litíase renal?
É a formação de cristais sólidos (cálculos ou pedras) no trato urinário. É muito prevalente e atinge mais homens do que mulheres. Pode causar dor intensa e complicações.
Quais são os principais tipos de cálculos renais?
Os cálculos mais comuns são os de oxalato de cálcio (75-80%), seguidos por fosfato de cálcio, ácido úrico, estruvita (infecção) e cistina. Cada tipo tem causas e tratamentos específicos.
Pedra nos rins dói muito?
Sim. Quando o cálculo se move na via urinária, promove uma dor súbita e intensa nas costas que é considerada uma das dores mais intensas da medicina.
Como é feito o diagnóstico?
A Tomografia computadorizada sem contraste é o padrão-ouro. Ultrassom é usado em gestantes e crianças Outros exames de sangue, urina e análise do cálculo podem complementar a avaliação.
Qual o tratamento para crise aguda?
Anti-inflamatórios não esteroides são a primeira linha para tratar a dor. Alfabloqueadores podem facilitar passagem de cálculos de 5-10 mm, porém só devem ser prescritos pelo médico em situações específicas.. Hidratação e acompanhamento são essenciais.]
Chá de quebra pedra funciona?
Não há evidências na literatura que eles dissolvam o cálculo. Porém podem ajudar na hidratação do paciente.
Quando é necessária cirurgia?
Algumas indicações incluem: cálculos >10 mm, infecção associada a obstrução da via urinária, dor refratária, redução da função dos rins ou falha de passagem espontânea após 4-6 semanas.
Quais são as opções cirúrgicas?
Litotripsia extracorpórea (ondas de choque), ureteroscopia (endoscopia) e nefrolitotomia percutânea. A escolha do método deve ser feita pelo médico urologista.
Como prevenir novos cálculos?
Aumentar ingestão de líquidos é fundamental. Manter cálcio dietético normal (1.000-1.200 mg/dia), reduzir sódio e proteína animal, e seguir a dieta DASH.
Devo evitar cálcio na dieta?
NÃO. Dieta baixa em cálcio AUMENTA risco de cálculos.
Quais alimentos devo evitar?
Excesso de sal, excesso de proteína animal, refrigerantes tipo cola.]
Quais medicamentos ajudam na prevenção?
Várias medicações podem ser indicada, porém com prescrição individualizada pelo médico. O tratamento depende da causa pela qual o paciente forma os cálculos. Algumas opções são: diuréticos tiazídicos, citrato de potássio e alopurinol
Qual a chance de ter outro cálculo?
Infelizmente a taxa de recorrência é bem elevada, podendo checar a 50% em 5 anos, em pacientes sem tratamento preventivo. A avaliação médica e a prescrição das medidas adequadas, direcionadas para a causa da formação dos cálculos, pode reduzir significativamente a recorrência.
Preciso fazer avaliação metabólica?
Sim, se você tem cálculos recorrentes, primeiro episódio em situação de alto risco, ou interesse em prevenção.Procure um médico nefrologista para investigação adequada.
Cálculos renais podem causar injúria renal aguda?
SIM. Se o cálculo obstruir a saída da urina, pode levar a perda de fução dos rins. Além disso, formadores recorrentes de cálculos têm risco aumentado de doença renal crônica em longo prazo.
Posso fazer exercícios com cálculo renal?
Durante a crise aguda os exercícios não são indicados. Porém fora das crises, exercícios são benéficos e ajudam a prevenir obesidade, que é fator de risco para litíase.
Conclusão: Prevenção é a solução!
Pedra nos rins é uma condição comum, dolorosa e com alta taxa de recorrência. Fazer a correta investigação da causa e fatores de risco é fundamental para prevenção e melhora da qualidade de vida.
Importante: Este artigo tem caráter informativo e educacional. Não substitui consulta médica. Sempre procure orientação de urologista ou nefrologista para diagnóstico e tratamento adequados à sua situação individual.