Infecção urinária de repetição: causas, prevenção e tratamento

O que é infecção urinária de repetição?

A infecção urinária de repetição (ITU recorrente) é caracterizada por  três ou mais episódios de infecção urinária nos últimos 12 meses ou duas ou mais em 6 meses. O ideal é que o episódio seja confirmado por uma cultura de urina.

É uma condição médica comum e que causa piora da qualidade de vida das pacientes que a desenvolvem. É mais comum em mulheres.

Mais de 50% das mulheres terão ao menos uma infecção urinária (ITU)  ao longo da vida. Dessas, até um quarto pode desenvolver infecções recorrentes.

Sintomas

Sintomas típicos de cistite

Os episódios recorrentes geralmente apresentam:

Quando suspeitar de complicação

Alguns sinais e sintomas podem indicar complicação da infecção. Alguns sintomas que devem alertar o paciente:

Esses casos precisam de avaliação médica cuidadosa.

Causas da infecção urinária de repetição

Reinfecção versus recaída

Existem dois tipos principais de ITU recorrente:

Reinfecção (mais comum):
Recaída (menos comum):

Bactérias mais comuns

A Escherichia coli (E. coli) é a responsável por aproximadamente 75% dos casos de  infecções urinárias de repetição.

Porém outras bactérias podem estar envolvidas como:

Papel do microbioma

Interações entre microbiomas urinário e vaginal influenciam a suscetibilidade à infecção. O equilíbrio dessas comunidades bacterianas é fundamental para proteção da paciente.

Por quê as mulheres são mais suscetíveis?

A anatomia feminina predispõe à contaminação, já que possui a uretra mais curta e próxima à região perianal. Isso facilita a ascensão das bactérias intestinais para a bexiga feminina.

Fatores de risco

Em mulheres na pré-menopausa

Principais fatores de risco estabelecidos:

Em mulheres na pós-menopausa

O risco se torna ainda maior, principalmente devido à redução de estrogênio:

Outros fatores de risco

Diagnóstico

O diagnóstico deve ser clínico e laboratorial.  História clínica detalhada e confirmação com exames complementares são recomendados para tratamento adequado das ITUs recorrentes.

Confirmação diagnóstica

Pelo menos um episódio sintomático deve ser confirmado por cultura de urina.

 Isso garante diagnóstico correto e orienta tratamento.

Exame de urina tipo I (EAS):
Cultura de urina (urocultura) e Antibiograma:

Quando fazer exames de imagem

Geralmente exames de imagem não são necessários em casos de ITU não complicada.

Indicações para imagem incluem:

Exames disponíveis:

Quando fazer cistoscopia

Cistoscopia é um exame endoscópico realizado pelo urologista para avaliar o interior da bexiga. Geralmente não está indicado nos casos de ITU.  Reserva-se para casos específicos com suspeita de anormalidades estruturais ou neoplasias, porém o paciente deve estar fora do episódio de ITU para realização do mesmo.

Tratamento da ITU de repetição

O tratamento envolve duas estratégias principais:

Tratamento dos episódios agudos

Antibióticos de curta duração

O tratamento deve ser prescrito por um médico e recomenda-se cursos curtos de antibióticos.

Opções de primeira linha para tratamento da ITU não complicada:

Abordagens inovadoras

Pesquisas recentes exploram alternativas aos antibióticos. Um estudo recente de 2026, publicado na revista Nature Microbiology  demonstrou que anakinra (inibidor de IL-1) foi não inferior à nitrofurantoína no tratamento de cistite aguda recorrente.

Esta terapia de inibição imune direcionada reduziu recorrências sem efeitos adversos, representando potencial alternativa futura.

Prevenção de novos episódios

Várias medidas comportamentais são propostas para redução dos episódios de ITU recorrente. Estratégias com uso de antibiótico também são indicadas em alguns casos.

Modificações comportamentais e de estilo de vida

Hidratação:
Hábitos miccionais:
Contraceptivos:

Estrogênio vaginal (Primeira linha em pós-menopausa)

É considerado tratamento de primeira linha em mulheres na pós menopausa.

Só deve ser usados sob prescrição médica.

Benefícios:

Metenimina

A metenimina é uma alternativa não antibiótica promissora.

Só deve ser usados sob prescrição médica.

Cranberry

Produtos de cranberry podem reduzir ITU recorrente, especialmente em mulheres na pré-menopausa.

Só deve ser usados sob prescrição médica.

Probióticos

Probióticos contendo Lactobacillus podem ajudar a restaurar microbioma protetora.

Só devem ser usados sob prescrição médica.

Profilaxia Antibiótica

Quando medidas não antibióticas falham, profilaxia com antibióticos pode ser necessária. A estratégia deve ser discutida com seu médico para prescrição adequada.

Duas estratégias são descritas:

Profilaxia contínua:

Doses baixas de antibiótico por meses.

Profilaxia pós-coital:

Uso de antibiótico após a relação sexual.

Riscos da profilaxia antibiótica:

Imunoterapia

Vacinas e imunoestimulantes representam estratégias emergentes. Um exemplo é o OM-89 (Uro-Vaxom), um imunoestimulante oral.

Terapias intravesicais

Instilações de soluções específicas dentro da bexiga podem ser consideradas em casos refratários.

****Qualquer estratégia deve ser discutida com o médico Nefrologista que segue o paciente e prescrita por ele, pois cada paciente tem indicações específicas para a profilaxia das ITUs recorrentes.****

Complicações potenciais

Resistência bacteriana

O uso de antibióticos repetidamente aumenta o risco de resistência bacteriana.

Consequências:

Pielonefrite

Infecções que ascendem até os rins. São potencialmente graves.

Sinais de alerta:

Impacto na qualidade de vida

As ITU recorrentes afetam diretamente:

Sepse

Em casos raros, especialmente em pacientes vulneráveis, ITU pode progredir para sepse, uma infecção generalizada com risco de vida potencial. Exige atendimento médico em urgência e abordagem rápida e especializada.

Perguntas frequentes

O que é infecção urinária de repetição?

A definição de infecção urinária de repetição é: três ou mais infecções urinárias em  1 ano ou duas ou mais em seis meses. Afeta principalmente mulheres e requer abordagem preventiva específica.

Quais são as principais causas?

A maioria acontece por reinfecções por novas bactérias, geralmente E. coli. Fatores predisponentes incluem:  atividade sexual, uso de espermicida, menopausa e alterações no microbioma.

Preciso fazer exames de imagem?

Geralmente NÃO há necessidade de exames de imagem.Só são necessários em situações específicas.

Qual a melhor forma de prevenir?

Não existe uma estratégia única. O ideal é passar por uma avaliação médica para definir a melhor estratégia. Medidas comportamentais e medicações devem ser prescritas pelo médico assistente. Estrogênio vagina, aumento de ingestão de água e uso de cramberry são algumas das estratégias descritas.

Devo usar antibióticos preventivos?

Apenas o médico pode definir se a estratégia com uso de antibiótico profilático é necessária. Geralmente são indicados quando as medidas comportamentais e não antibióticas falham.

O que é metenimina?

É um agente não antibiótico com potencial de eliminar bactérias na urina quando se converte em formaldeído na urina ácida.

Cranberry realmente funciona?

Em casos selecionados o uso de cramberry mostra benefício, especialmente em mulheres pré menopausa

Estrogênio vaginal é seguro?

Sim, estrogênio vaginal é seguro e eficaz para prevenir ITU em mulheres pós-menopáusicas.

Quanto tempo devo tomar antibiótico para cistite?

Cursos curtos de antibiótico são tão eficazes quanto longos. Os principais esquemas terapêuticos são:  nitrofurantoína por 5 dias, SMX-TMP (bactrim) por 3 dias, ou fosfomicina em dose única.

Relação sexual causa ITU?

A atividade sexual predispõe à ITU, principalmente se ≥3x/semana ou com uso de espermicida. Urinar após relação e profilaxia pós-coital podem ajudar.

Diabetes aumenta risco de ITU recorrente?

Sim, diabetes está associado a maior risco de ITU recorrente. Controle glicêmico adequado é importante para reduzir recorrências.

Posso combinar diferentes estratégias preventivas?

Sim, abordagem multimodal é frequentemente recomendada. O ideal é discutir com seu médico a melhor estratégia para você.

Quando devo procurar especialista?

Se você tem três ou mais infecções por ano, não responde ao tratamento convencional, tem pielonefrite recorrente, suspeita de complicações, infecções associadas a pedra nos rins e infecções em homens.

Conclusão: Abordagem personalizada é fundamental

A infecção urinária de repetição é comum, influencia na qualidade de vida da paciente, porém é manejável através de medidas muitas vezes simples. O seu tratamento às vezes traz muita frustração para a paciente. As diretrizes mais recentes enfatizam abordagem individualizada e centrada no microbioma.

Pontos-chave:

A mudança de paradigma do modelo tradicional (erradicar patógenos) para o modelo moderno (fortalecer microbioma protetor) representa avanço importante no manejo desta condição.

Trabalhe com sua equipe médica para desenvolver plano preventivo personalizado!

É possível reduzir significativamente as recorrências e melhorar a qualidade de vida, minimizando o uso de antibióticos e risco de resistência bacteriana, com abordagem adequada.

Importante: Este artigo tem caráter informativo e educacional. Não substitui consulta médica. Sempre procure orientação de urologista, nefrologista, ginecologista ou infectologista para diagnóstico e tratamento adequados à sua situação individual.

Quer saber mais sobre infecção urinária? Assista ao vídeo abaixo: